Um olhar sobre a pornochanchada: o que foi e por que fez tanto sucesso?

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Violência na Carne

Violência na Carne reuniu atrizes como Helena Ramos l Foto: Cinemateca Brasileira

Todo mundo já ouviu falar da pornochanchada, mas muitas vezes ela é confundida com qualquer filme feito na Boca ou ainda qualquer longa realizado no Brasil nos anos 70. Nada mais falso. A pornochanchada foi um gênero específico. E muito bem-sucedido.

Nos anos 70 e primeira metade dos 80, um gênero tipicamente brasileiro tomou conta das telas de cinema do país, emplacando algumas das maiores bilheterias da história, criando uma espécie de star system local e marcando época com histórias divertidas, de forte apelo erótico e, claro, muita nudez. Era a pornochanchada. Mas, afinal, do que se tratava este tipo de filme?

A pornochanchada recebeu esse nome da crítica ainda nos anos 70, numa junção dos termos pornô e chanchada. As chanchadas foram comédias populares cujo auge ocorreu na década de 50. O pornô, naturalmente, era uma alusão ao erotismo e situações sexuais sempre presentes nas pornochanchadas. Assim, pode-se dizer que pornochanchada é uma comédia erótica popular. E é justamente nessa simplicidade que reside grande parte do sucesso do gênero, cujos realizadores souberam explorar um nicho de mercado pouco atendido pelas produções internacionais daquela época.

Segundo a Enciclopédia do Cinema Brasileiro, as pornochanchadas tiveram seu início com longas como Os Paqueras (de Reginaldo Faria, 1969), Adultério à Brasileira (de Pedro Carlos Rovai, 1969) e Memórias de um Gigolô (de Alberto Pieralisi, 1970). Entretanto, Ody Fraga — que viria a ser um dos nomes fundamentais do cinema da Boca — já havia lançado o obscuro Vidas Nuas, em 1967, que merece ser considerado também um precursor do gênero.

Aqui, Tarados!

Aqui, Tarados! (1980)

Embora várias das primeiras pornochanchadas tivessem sido realizadas no Rio de Janeiro, foi em São Paulo que elas tiveram seu ciclo mais frutífero, mais precisamente nas imediações da Rua do Triunfo, na região conhecida como Boca do Lixo. Naquele cenário improvável, se desenvolveu o mais bem sucedido polo cinematográfico do país, que empregou dezenas de atores, produtores, técnicos e diretores, que faziam parte de filmes realizados em escala praticamente industrial, ainda que sem incentivos nem verba estatal.

A falta de recursos econômicos e, na maioria dos casos, de estudos formais de cinema (algo que ficava evidente nos diálogos) não impediu que esse grupo de realizadores fizesse filmes muito bons — em meio a várias tranqueiras também, claro. Cineastas como Fauzi Mansur, Cláudio Cunha e Jean Garrett, entre outros, demonstraram um evidente talento na direção e na arte de contar histórias. Mas é incorreto, a meu ver, dizer que todos os seus filmes fossem pornochanchadas, como foram catalogados várias vezes, devido a uma mistura de preconceito e desconhecimento.

Filmes como A Noite do Desejo (Mansur, 1973), Excitação (Garrett, 1976) ou Amada Amante (Cunha, 1978) podiam ter situações sexuais ou cenas de nudez, mas não são pornochanchadas. Pior ainda é chamar assim longas como Bonitinha, Mas Ordinária, de Braz Chediak (1981), ou Império do Desejo, de Carlos Reichenbach (1980), cujas pretensões iam muito além da simples sacanagem de tantas produções da Boca. Mas em suma, qualquer filme dessa época que tivesse “sexo e mulher pelada” (estigma que ‘perseguiu’ o cinema brasileiro por muito tempo) acabou sendo considerado pornochanchada. O que evidentemente é um erro, embora seja importante destacar que sob nenhum aspecto “sexo e mulher pelada” sejam elementos negativos dentro de uma obra artística.

Além dos diretores anteriormente citados, se destacaram Alfredo Sternheim e David Cardoso, este último também um ótimo produtor e o maior galã da história das pornochanchadas, um território em que eram elas que brilhavam. Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Zilda Mayo, Aldine Müller e Nicole Puzzi foram as maiores estrelas do gênero. Atrizes como Neide Ribeiro e Patrícia Scalvi também construíram carreiras importantes e ter qualquer uma delas no elenco era um bom chamariz para o público. O sucesso do formato atraiu até artistas já consagradas, como Rossana Ghessa, que não apenas protagonizou, como também produziu alguns longas desse período.

Com relação aos roteiros, o que caracterizava a pornochanchada eram as piadas de duplo sentido, situações eróticas envolvendo muitas vezes temas como o adultério, a virgindade, a impotência, a prostituição e a cafetinagem, e a exibição farta de nudez feminina. Esta última era uma exigência dos exibidores, que adiantavam dinheiro aos cineastas, esperando recuperá-lo quando o filme estivesse em cartaz. O modelo funcionou bem durante vários anos, possibilitando uma espécie de indústria, ainda que artesanal, que alimentava de títulos as salas de cinema. Títulos que, aliás, eram bastante sensacionalistas, e às vezes nem tinham tanta relação com a história, mas serviam para atrair o público.

Me Deixa de Quatro

Me Deixa de Quatro (1981)

Entre as pornochanchadas de fato, se destacaram longas como O Inseto do Amor (1980) e Me Deixa de Quatro (1981), ambos de Mansur, Violência na Carne (1981), de Sternheim, e Aqui, Tarados! (1980), cujo último episódio (O Pasteleiro), dirigido por Cardoso, é um dos momentos mais inspirados da história da Boca, indo muito além do erotismo e transformando-se num terror gore da melhor qualidade, protagonizado pela bela Alvamar Taddei e pelo mítico John Doo, que anos antes dirigira outra criativa mistura de sexo e sangue, o instigante Ninfas Diabólicas (1978).

Todos os filmes citados tinham generosas doses de nudez — especialmente feminina — e erotismo, porém nenhum deles chegou perto de ser considerado pornográfico. Porém, com a entrada dos filmes pornô norte-americanos no mercado brasileiro, nos anos 80, os realizadores foram obrigados a enxertar cenas de sexo explícito em seus longas (às vezes de outras produções ou com dublês) para agradar os exibidores e manter o interesse do público, que já procurava por material mais hardcore. Aos poucos, o pornô foi tomando conta da Boca e as musas do gênero se retiraram, dando fim a um ciclo que durou da primeira metade dos anos 70 até meados da década de 80.

O sexo explícito matou as pornochanchadas, que deixaram para a história algumas das maiores bilheterias do cinema brasileiro, como Aluga-se Moças (3 milhões de espectadores, fora a polêmica pelo erro de português no título), Bem Dotado, o Homem de Itu (2,4), Giselle (2,2), Como É Boa a Nossa Empregada (2,1), A Noite das Taras (2,1) e Mulher Objeto (2 mi). Curiosamente, nenhum deles chegou perto de Coisas Eróticas, de Raffaele Rossi (1981), considerado o primeiro filme pornô brasileiro, e que atraiu nada menos do que 4 milhões de pessoas.

Mais do que dinheiro nas bilheterias, as pornochanchadas deixaram também o registro de uma época marcada pela mudança de costumes, a liberação sexual e a emancipação feminina. Significaram também o sustento de toda uma geração de realizadores e atores que, vencendo as limitações, sobretudo econômicas, e driblando a censura que tanto mutilou os filmes daquela época, construíram o modelo de cinema independente de maior sucesso que o Brasil já teve em toda a sua história.

Sergio Marcio (18 Posts)

Jornalista, roteirista e produtor cultural, completamente apaixonado por cinema e teatro, especialmente do Brasil, América Latina e Europa.


One comment

  1. […] uma região da capital paulista que ficou célebre sobretudo pelas comédias eróticas (as famosas pornochanchadas), mas também por policiais, dramas, faroestes e outros gêneros. Nesse que foi o maior polo […]

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