Rossana Ghessa, a bela e talentosa musa do cinema brasileiro

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Rossana Ghessa em Bebel, Garota Propaganda

Bebel, Garota Propaganda foi um dos mais preciosos e importantes filmes da atriz l Fotograma

Linda, charmosa e muito talentosa, Rossana Ghessa transitou com o mesmo afinco e desenvoltura tanto por filmes épicos e dramas urbanos, como por comédias mais leves e também eróticas, se tornando musa e mito do cinema nacional.

Nascida em 24 de janeiro de 1943 na ilha italiana da Sardenha, Rossana Ghessa chegou ao Brasil ainda criança, para anos depois se tornar uma das mais belas, talentosas e carismáticas atrizes da sua geração. Dona de um sorriso marcante e uma graça natural, a artista ítalo-brasileira logo demonstrou grande versatilidade, desempenhando-se em filmes épicos, dramas urbanos e comédias eróticas, sempre com o mesmo comprometimento e competência.

Antes de ir para as telas de cinema, Ghessa trabalhou como modelo e garota propaganda. Sua estreia na telona aconteceria aos 23 anos, no longa Paraíba, Vida e Morte de Um Bandido (1966), ao lado de um grande elenco. Dois anos depois, a atriz protagonizaria um dos seus filmes mais marcantes, o belíssimo Bebel, Garota Propaganda, no qual interpretava o personagem-título, em um dos seus melhores e mais bonitos trabalhos.

Já nos anos 70, com o domínio das comédias cheias de sensualidade e mulheres bonitas nas telas brasileiras, Rossana se tornou um dos nomes mais importantes do nosso cinema, encaixando um trabalho atrás do outro. Destacaram-se nesta fase Memórias de um Gigolô, Lua de Mel e Amendoim e Quando As Mulheres Querem Provas. Por sua vez, Ana Terra, Pureza Proibida e A Noiva da Noite foram filmes com um estilo mais clássico, longe do tom habitual das produções da época.

No final da década de 70 e primeira metade dos 80, a atriz continuou sua carreira protagonizando ou coadjuvando pornochanchadas, como As Borboletas Também Amam e Bordel – Noites Proibidas, que já mostravam uma faceta sua mais ousada, combinando com as exigências do mercado de cinema popular da época. Isso até que o colapso da cinematografia nacional a afastasse dos holofotes, deixando como derradeiras contribuições nesse período a co-produção internacional Fêmeas em Fuga e o obscuro Cio dos Amantes, último filme de Nádia Lippi. Ainda assim, já nos anos 90, Rossana atuou em outro longa, Adágio ao Sol, um drama ambientado na época da Revolução Constitucionalista.

Do charme do preto e branco nos clássicos dos anos 60, passando pelas comédias da década de 70 aos filmes populares dos 80, Rossana sempre brilhou, não apenas por sua arrebatadora beleza, mas também por seu indiscutível talento. E assim construiu uma das mais interessantes trajetórias do cinema brasileiro, interpretando com a mesma dedicação a valente Ana Terra do longa-metragem homônimo, a curiosa irmã Lúcia de Pureza Proibida ou a fogosa Lucy de Me Deixa de Quatro. Uma carreira cintilante, que vale a pena repassar nesta lista de trabalhos marcantes da atriz.

Primeira etapa: os filmes clássicos

Paraíba, Vida e Morte de um Bandido (1966)

Verdadeiro clássico policial e um dos melhores filmes do gênero já realizados no Brasil, o longa é protagonizado por Jece Valadão e conta com as atuações de um timaço formado por Jardel Filho, Ítalo Rossi, Milton Gonçalves, Jorge Dória, Wilson Grey e Darlene Glória; além, claro, da própria Rossana, que fazia sua estreia nas telas, na pele de Angelina, a ex-amante do bandido interpretado por Jece Valadão, e que é assassinada a sangue frio por ele, logo no começo da trama. Depois seu personagem aparece em flash-backs, que ajudam a entender como Paraíba chegou àquele ponto, sendo perseguido implacavelmente pela polícia, o que culmina numa ótima sequência fora do estádio do Maracanã.

Bebel, Garota Propaganda (1968)

Um dos mais belos filmes daquela que considero a década de ouro do cinema brasileiro, Bebel… é também o longa de estreia do diretor Maurice Capovilla. Baseado no romance “Bebel Que A Cidade Comeu”, de Ignácio de Loyola Brandão, o filme mostra uma bela mas pobre garota que é contratada para estrelar um comercial de sabonete. Com o fim do instantâneo sucesso, a garota conhece o lado sórdido da indústria de entretenimento. Um filme pioneiro, que explora com elegância a questão da exploração feminina no mercado publicitário e na TV. O final, ao som de The Bells, é lindíssimo, como quase tudo neste filme, que também tem as presenças de John Herbert, Paulo José, Geraldo Del Rey e Maurício do Valle.

Quelé do Pajeú (1969)

Durante mais de 40 anos, esta joia dirigida por Anselmo Duarte — realizador do mítico O Pagador de Promessas — ficou perdida, pois a única cópia havia sido levada para os Estados Unidos e nunca mais se soube do seu paradeiro. Foi o escritor, diretor e produtor Paulo Wenceslau Duarte que conseguiu encontrá-la e, assim, o filme pôde ser exibido recentemente no Canal Brasil. Assim pudemos conhecer este belo filme, único da história brasileira feito em 70mm, protagonizado por Tarcísio Meira e que tem no elenco nomes como Jece Valadão e Elizângela, ainda adolescente. Trata-se de uma história de vingança no sertão nordestino; um ótimo exemplar do cinema de cangaço. Destaque para a monumental cena em que Quelé desafia Lampião e seu bando.

O Palácios dos Anjos (1970)

Primeira colaboração da atriz com o genial cineasta Walter Hugo Khouri, morto em 2003 e dono de uma das filmografias mais sofisticadas e fascinantes do cinema brasileiro — a segunda foi uma pequena participação em Convite ao Prazer, ao lado de Helena Ramos. Em O Palácio dos Anjos a atriz dividiu o protagonismo com a francesa Geneviève Grad e a argentina naturalizada brasileira Adriana Prieto. Elas interpretam três amigas que decidem transformar seu apartamento em um luxuoso bordel, no qual atendem seus clientes; mas, apesar do sucesso e do dinheiro que muda a vida das jovens, começam a surgir problemas emocionais que abalam o trio. Selecionado em Cannes, este é um dos filmes mais celebrados do diretor.

Ana Terra (1971)

Este é sem dúvida um dos filmes mais emblemáticos na carreira da atriz, por vários motivos. O primeiro, porque é um épico baseado na fabulosa obra de Érico Veríssimo “O Tempo e o Vento”; o segundo, porque nele Rossana interpreta Ana Terra, um dos personagens femininos mais importantes da literatura brasileira, que rendeu à atriz um prêmio no Festival de Cinema de Nápoles; e o terceiro, porque graças ao longa ela conheceu o diretor Durval Garcia, que se tornaria seu esposo e com o qual vive até hoje. Este drama histórico, que recebeu a Placa de Ouro do Júri no festival napolitano, praticamente encerra o ciclo de filmes clássicos da atriz, que a partir de então passaria a fazer papéis mais sensuais no cinema.

Segunda etapa: dramas e comédias sensuais

Memórias de um Gigolô (1970)

Dirigido por Alberto Pieralisi, um dos reis da comédia erótica brasileira nos anos 70, o filme foi um estrondoso sucesso. Também representou o início de uma etapa com filmes que exploravam a sensualidade de Rossana, que realizou suas primeiras cenas de nudez neste longa protagonizado por ela e pelos atores Cláudio Cavalcanti e Jece Valadão. A história é simples: um jovem que cresceu num bordel se apaixona por uma das moças, mas para ficar com ela deve se livrar do seu amante, um sujeito mal encarado e perigoso. Na verdade, os três são trambiqueiros que procuram ganhar a vida da forma mais fácil, o que rende situações muito divertidas nesta saborosa comédia, que ainda tem uma deliciosa música que fica na cabeça da gente por muito tempo.

Lua de Mel e Amendoim (1971)

Outro filme de enorme sucesso e que também marcou o início desta etapa foi Lua de Mel e Amendoim, dirigido por Pedro Carlos Rovai e Fernando de Barros, que assina o episódio protagonizado pela atriz. Importante jornalista e editor de moda, Barros assinaria o ensaio fotográfico de Rossana para a Playboy, no final da década. Neste filme, a atriz dá vida a uma filha de industriais italianos às voltas com o homem com quem acaba de se casar, mas que não está ‘funcionando’ na lua de mel. O filme é cheio de momentos cômicos e de bastante sensualidade — como aquele em que as duas famílias vão ao quarto dos dois para conferir se o casamento já foi consumado. Certamente uma das cenas mais sensuais da carreira da atriz.

Pureza Proibida (1974) 

Apesar de em 1974 já se encontrar na etapa em que começou a fazer mais comédias populares, Rossana ainda atuaria em alguns dramas, como este dirigido por Alfredo Sternheim e produzido pela própria atriz. O filme conta a história de uma noviça órfã que mora num convento localizado num pequeno vilarejo litorâneo. Sempre alegre e muito querida pelas crianças, com as quais vive brincando, a jovem se apaixona por um pescador negro (Zózimo Bulbul), o que desencadeia um drama de imprevisíveis consequências. Embora este trabalho esteja longe dos filmes abertamente mais sexualizados de Sternheim, é inegável que o personagem de Rossana emana uma sensualidade palpável, neste que é um dos melhores trabalhos da atriz.

Lucíola, o Anjo Pecador (1975)

A segunda e última parceria de Alfredo Sternheim com a atriz ocorreu neste longa baseado na obra de José de Alencar. O galã Carlo Mossy, que em Pureza Proibida interpretava um padre, aparece desta vez como Paulo, um bacharel pernambucano recém-chegado ao Rio de Janeiro e que se encanta por Lucíola. Apesar de ser informado por um amigo de que Lucíola é uma prostituta, Paulo não consegue evitar se apaixonar pela bela cortesã, e menos ainda os ciúmes que sente pelo seu trabalho. Embora o filme tenha certas pitadas de erotismo, com o bom gosto que caracteriza grande parte dos trabalhos do diretor, se inclina mais pelo drama, mostrando a transformação e conflituosa relação dos jovens amantes.

Terceira etapa: as pornochanchadas da Boca

O Inseto do Amor (1980)

De todas as pornochanchadas feitas pelos diretores da Boca do Lixo, sem dúvida O Inseto do Amor é a que reúne a maior quantidade de lindas atrizes. Além de Rossana, fazem parte do elenco Angelina Muniz, Helena Ramos, Ana Maria Kreisler, Zélia Diniz, Aryadne de Lima, Alvamar Taddei e Helena Ramos, entre muitas outras. Todas têm seus respectivos bumbuns picados por um mosquito, cujo ataque obriga a pessoa a ter relações sexuais em duas horas, se não quiser morrer, situação que gera as mais engraçadas cenas. Dirigida pelo inventivo Fauzi Mansur, esta é uma das mais deliciosas pornochanchadas da Boca, ambientada na paradisíaca Ilhabela, cenário ideal para uma comédia tão picante.

Me Deixa de Quatro (1981)

Se no filme anterior Rossana Ghessa já se mostrava bastante mais solta diante da câmera, em Me Deixa de Quatro a atriz entra de vez na lista das grandes musas da pornochanchada, com cenas ousadas e que mostram sua beleza em todo o seu esplendor, já às portas dos 40 anos. Especialmente nas cenas com Serafim Gonzalez — que interpreta um machão preocupado pela possibilidade do seu único filho ser homossexual —, a atriz se joga num papel que exige caras, bocas e posições. Ponto para o diretor Fauzi Mansur, que obtém da atriz um ótimo desempenho, no papel da esposa fogosa porém conformada, em um excelente retrato de personagens típicos de um bairro popular da capital paulista.

Fantasias Sexuais (1982)

Provavelmente 1982 foi o ano em que a atriz protagonizou suas cenas mais quentes, em dois filmes de episódios, ambos abertamente eróticos. O primeiro deles foi dirigido por Juan Bajon, que se notabilizou por explorar os mais diversos fetiches em seus mais de 30 longas. Em “A Mulher Abelha”, terceiro e último episódio narrado no filme, Rossana interpreta uma espécie de viúva negra; uma mulher que suga o mel do seu amante antes de matá-lo depois de intermináveis sessões de sexo. O episódio dura quase 40 minutos e não é nenhum exagero afirmar que a atriz passa metade desse tempo nua, geralmente em cenas de sexo com o ator José Lucas, com quem contracena ao longo de todo o segmento.

Mulheres Liberadas (1982)

Outro filme de 82 é Mulheres Liberadas, de Adnor Pitanga. Novamente, Rossana participa de um episódio, chamado “O Telefone”, que é o segundo deste longa composto por três segmentos. Trata-se da história de uma mulher casada que começa a receber telefonemas eróticos de um estranho, com o qual passa a alimentar diversas fantasias, naturalmente retratadas pelo filme. Novamente a nudez de Rossana é explorada em longos takes, que aproveitam a notável beleza e desembaraço da atriz. O filme é bem-sucedido na criação de uma atmosfera erótica e Rossana segura bem as pontas, atuando sozinha em boa parte do episódio e se saindo muito bem no papel da mulher cheia de fantasias e desejos.

Momentos de Prazer e Agonia (1983)

Embora não seja um dos melhores filmes de Rossana — o longa é prejudicado por algumas atuações amadoras —, é digno de registro pelo dedicado trabalho da atriz. Rossana não apenas protagonizou o filme, na pele de uma professora que se muda para o interior com o fim de deixar para trás seu passado, mas também cuidou da produção e da música de forma muito competente, demonstrando ter pleno domínio do ofício e consciência de como funcionava o mercado. Assim, obteve um thriller comercialmente muito interessante, que contava ainda com a presença do astro internacional Anthony Steffen. Um filme irregular, mas com algumas sequências muito destacadas, seja pelo drama, pelo suspense ou pelo erotismo.

Sergio Marcio (18 Posts)

Jornalista, roteirista e produtor cultural, completamente apaixonado por cinema e teatro, especialmente do Brasil, América Latina e Europa.


One comment

  1. […] Destas, apenas Aldine não começou a carreira como telemoça do Sílvio Santos. Por outro lado, Rossana Ghessa e Selma Egrei construíram uma carreira sólida fora da Boca, mas com contribuições importantes […]

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