Walter Hugo Khouri, o cineasta do vazio existencial

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Walter Hugo Khouri e Odete Lara

Khouri posa ao lado de Odete Lara durante as filmagens de Noite Vazia l Foto: Acervo

Ao longo de 26 filmes, Walter Hugo Khouri demonstrou ser um cineasta de firmes convicções, que nunca abdicou de construir um universo próprio, habitado por personagens cheios de angústias, dúvidas e uma grande sensação de vazio.

Dois grandes diretores do cinema brasileiro nos deixaram num dia 27 de junho. De um deles —o genial baiano Roberto Pires— falarei em breve, porque hoje vou lembrar de outro, o não menos genial Walter Hugo Khouri, dono de uma prolífica carreira de 26 filmes rodados em quase meio século de trabalho como cineasta.

Nascido em São Paulo em 21 de outubro de 1929 e falecido na mesma cidade, em 27 de junho de 2003, Khouri se tornou um dos maiores autores da história do cinema nacional, imprimindo aos seus filmes um característico selo pessoal. Fortemente influenciado pelos diretores europeus —era inclusive chamado de Ingmar Bergman brasileiro—, o cineasta realizou dramas intimistas, com diálogos instigantes, belas cenas (muitas fotografadas por ele mesmo) e personagens atormentados, em histórias em que revelava suas obsessões e angústias existenciais.

Pessoalmente, sempre vi nos seus diálogos e estilo de filmar uma marca tão própria que tenho certeza que poderia reconhecer um longa dirigido por Khouri mesmo sem ter sido advertido da sua autoria —o que a estas alturas é impossível, pois vi 23 deles. E gostei de quase todos, embora tenha os meus favoritos. Em ordem cronológica: Noite Vazia (1964), As Amorosas (1968), Convite ao Prazer (1980) e Eros, o Deus do Amor (1981).

Numa época em que os diretores nacionais eram catalogados dentro de movimentos como o cinema novo ou o cinema marginal, ou então pertenciam ao filão mais popular, Walter Hugo Khouri não se encaixava em nenhum deles. Mesmo na escolha das suas “musas” (aspecto marcante em suas obras) como no tratamento do erotismo e do sexo —sempre filmado com bom gosto e alto grau de sofisticação— o realizador mostrou um estilo inconfundível e continua, 14 anos depois da sua morte, sendo o meu cineasta brasileiro favorito.

Alguns filmes marcantes de Walter Hugo Khouri

Estranho Encontro

Estranho Encontro (1958)

O primeiro grande filme de Khouri tem um tom sombrio, mostrando uma mulher que foge do marido, um homem neurótico com uma perna amputada. Socorrida na estrada por Marcos, ela é levada para a casa onde ele trabalha e que pertence à amante Wanda. Lá, permanece escondida, enquanto seu esposo vai à sua procura. Um filme cheio de suspense e com uma atmosfera angustiante, protagonizado por Andrea Bayard, Mário Sérgio e Luigi Picchi.

Noite Vazia

Noite Vazia (1964)

Considerada a grande obra-prima do diretor, Noite Vazia apresenta dois amigos que saem à caça de mulheres na noite paulistana e terminam levando duas prostitutas para o apartamento de um deles. Mas o que prometia ser uma noitada de sexo se torna uma experiência em que todos expõem seu profundo vazio existencial. As míticas Odete Lara e Norma Bengell interpretam as escortes que fazem companhia ao italiano Gabriele Tinti e ao paulistano Mário Benvenutti, um dos atores preferidos de Khouri.

As Amorosas

As Amorosas (1967)

Um dos filmes com mais perguntas existenciais da carreira do diretor, As Amorosas é protagonizado por Paulo José, que interpreta um jovem universitário cheio de dúvidas e indecisões, que acabam se refletindo nas suas atitudes e conduta na vida. Vivendo quase na pobreza e sem maiores perspectivas, o personagem arranja dinheiro fazendo bicos e apelando para os empréstimos da irmã. Diálogos deliciosos compõem este filme que tem ainda as atuações de Anecy Rocha —irmã menor de Glauber, tragicamente falecida anos depois—, Lílian Lemmertz, Stênio Garcia e a romena Jacqueline Myrna.

O Palácio dos Anjos

O Palácio dos Anjos (1970)

Um dos maiores sucessos de crítica do diretor, O Palácio dos Anjos mostra um grupo de jovens amigas que decidem transformar seu apartamento em uma espécie de casa de encontros no qual oferecem seus serviços. Com uma agenda recheada de contatos, elas fazem sucesso rapidamente, mas também passam a enfrentar problemas emocionais. O filme traz como protagonistas a francesa Geneviève Grad, a ítalo-brasileira Rossana Ghessa e a argentina naturalizada brasileira Adriana Prieto —que também morreria de forma trágica anos depois—, além de Norma Bengell e Joana Fomm.

O Convite ao Prazer

O Convite ao Prazer (1980)

Em Convite ao Prazer o diretor pega ‘mais pesado’ e apresenta inúmeras cenas de sexo, para mostrar a reunião de dois amigos de infância com prostitutas no apartamento de um deles, interpretado por Roberto Maya, habitual ator nos filmes de Khouri. O outro personagem, vivido por Serafim Gonzalez, é casado com Anita (Helena Ramos), que decide investigar onde está o marido. O filme mostra mais uma vez o vazio existencial dos seus personagens, e conta com Aldine Müller, Kate Lyra, Nicole Puzzi, Sandra Bréa, Patrícia Scalvi e Alvamar Taddei no elenco.

Eros, o Deus do Amor

Eros, O Deus do Amor (1981)

Possivelmente o primeiro filme que vi de Walter Hugo Khouri, e que me fez desde então admirar e procurar mais sobre a sua obra. Em Eros, o Deus do Amor, um paulistano de meia-idade relembra as mulheres que passaram pela sua vida, desde a mãe desejada (a atração incestuosa era um assunto recorrente nos filmes do diretor) até a atual amante, passando pelos mais diversos personagens. O filme traz para a tela um impressionante elenco feminino, composto por Norma Bengell, Dina Sfat, Lílian Lemmertz, Christiane Torloni, Denise Dumont, Kate Lyra, Monique Lafond e Selma Egrei, entre muitas outras.

Amor Estranho Amor

Amor Estranho Amor (1982)

Embora este filme tenha passado para a história por causa da infame cena de sexo do garoto Marcelo Ribeiro, então com 12 anos, com Xuxa, 19, ele é bem mais do que isso. Um bom elenco, uma interessante história e alguns dos elementos do universo de Khouri estão presentes num filme que foi muito mais comentado do que assistido. O longa narra a chegada de um garoto a um bordel de luxo, onde sua mãe trabalha. É ali que o ator mirim fez cenas ousadas não apenas com Xuxa, mas também com Matilde Mastrangi e Vera Fischer. Aliás, um ano antes, em Eros, o Deus do Amor, o garoto já havia encarado cenas assim com Kate Lyra, sem que houvesse polêmica alguma. Claro, Lyra não era a rainha dos baixinhos nem entrou na justiça para proibir a exibição do longa.

Sergio Marcio (18 Posts)

Jornalista, roteirista e produtor cultural, completamente apaixonado por cinema e teatro, especialmente do Brasil, América Latina e Europa.


One comment

  1. […] lista, Nicole coleciona trabalhos com diretores aclamados como Carlos Reichenbanch, Ivan Cardoso e Walter Hugo Khouri. Escritora, é autora do livro “A Boca de São Paulo” e também apresenta o programa […]

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