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Lauro Corona completaria 60 anos nesta data

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Lauro Corona

Lauro Corona colecionou grandes sucessos ao longo dos anos 80 l Foto: Vírgula

Hoje se comemora o 60º aniversário de Lauro Corona, considerado um dos grandes galãs da TV brasileira no fim dos anos 70 e durante toda a década de 80. O ator teve uma carreira de sucesso, interrompida quando tinha apenas 32 anos.

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Há 7 anos, a série Alice encantou o público da HBO

Andréia Horta em Alice

A série foi uma das primeiras produzidas no Brasil pela HBO l Foto: Divulgação

No segundo semestre de 2008, a HBO exibiu a série “Alice”. Com uma trilha sonora envolvente, estética caprichada e elenco afiado, a série encantou o público e ganhou inclusive um especial em duas partes dois anos depois. Um dos grandes méritos de “Alice” foi ter projetado atrizes talentosas como Andréia Horta, Luka Omoto e Gabrielle Lopez. O ALDEIA CULTURAL, ainda na sua primeira época, conversou com as três, nas entrevistas que você pode relembrar a seguir.

Um olhar sobre Alice (HBO, Brasil, 2008)

“Alice” foi a terceira produção da HBO realizada no Brasil, após as bem sucedidas temporadas de “Mandrake” (2005 e 2007) e “Filhos do Carnaval” (2006). Em 13 capítulos, a série narrou a história de uma jovem nascida e criada na pequena Palmas, capital do Tocantins, de ruas retas e sem muito movimento. A ponto de se casar, o personagem-título leva também uma vida tão planejada como o lugar onde mora. Entretanto, o suicídio do seu pai (que ela pouco pode conhecer) em São Paulo a leva até a metrópole de quase 20 milhões de habitantes.

Em São Paulo, Alice faz o tour de force obrigado à idade adulta, de maneira dura e às vezes cruel. Ali ela encontra os mais diversos personagens, que em alguns casos a salvarão e em outros a deixarão à beira do abismo. A protagonista passa então a viver a 1.000 km por hora, disposta a se apropriar da cidade, torná-la sua e aproveitar tudo o que esta tem para lhe oferecer. Sua passagem pela vertiginosa capital termina sendo uma experiência transformadora, dessas que marcam a gente pela vida toda.

Andréia Horta em uma cena de Alice

De um virtuosismo estético singular e uma fotografia que sabe aproveitar as inúmeras possibilidades brindadas por uma cidade tão fascinante como a capital paulista, a série cativa por sua excelente trilha sonora, composta principalmente pelos músicos Tejo Damasceno e Rica Amabis, com nota alta também para as canções “Sem Mentira”, de Fábio Góes, e “Al”, de Estela Cassilatti. Todos estes elementos são combinados de maneira brilhante por Karim Aïnouz e Sérgio Machado, que compartilham a direção, conseguindo no entanto manter uma unidade dramática e visual entre os episódios.

É fácil perceber o enorme cuidado com que foi realizada a série, uma característica mais própria dos filmes que do que se faz normalmente na televisão. Este não é um detalhe menor, porque esse esmero deriva não só em um produto melhor acabado tecnicamente, mas também em interpretações muito mais sólidas, assim como ocorre no cinema.

Vinícius Zinn e Andréia Horta

Quanto ao roteiro, talvez o elemento mais criticado da série, é preciso dizer que, embora não seja excelente, está longe de decepcionar. Muito pelo contrário, já que o interesse na trama não cai em nenhum momento e isto em uma série não é nada fácil de conseguir. Mas é verdade que algumas situações se resolvem quase por inércia (ou algumas vezes de forma bastante discutível, como no caso da gravidez de Alice) e que não se aprofunda tanto no seu desenvolvimento, especialmente nas histórias paralelas.

Há algumas passagens com as quais nos identificamos imediatamente, mas outras são um pouco forçadas, como o momento em que DJ, o norte-americano que viaja no dia seguinte a Buenos Aires, seduz Alice no táxi, depois de escolher uma música no seu iPod. Esse primeiro ‘deslize’ da jovem é perfeitamente verossímil, nem tanto assim o jeito em que ela ‘cai’, que parece mais uma solução de efeito idealizada pelos roteiristas do que uma situação tirada da realidade. Mas é talvez esse uso excessivo e ao mesmo tempo acertado dos recursos que aporta fluidez a uma história que — sendo bastante rigoroso — não proporciona grandes emoções (mas sim muitas sensações), para além da empatia quase automática com os personagens.

Andréia Horta e Luka Omoto

Voltando à narrativa, esta não é vertiginosa — como talvez se poderia supor —, e inclusive tem vários silêncios e vazios, o que é quase uma marca registrada do diretor Karim Aïnouz. Quem conhece o cinema feito pelo realizador cearense (Madame Satã, O Céu de Suely) sabe que suas histórias estão sustentadas na empatia e força dos seus protagonistas. São os seus personagens/atores que apaixonam, nem tanto assim o que é contado. Se na telona foram Lázaro Ramos e Hermila Guedes os que sustentaram seus filmes, aqui é Andréia Horta que, com uma atuação magnética e irrepreensível, faz dar vontade de continuar acompanhando sua aventura na cidade grande.

A atriz, que na vida real também é escritora e viveu uma história parecida à do seu personagem (nasceu na tranquila Juiz de Fora para tentar a sorte em São Paulo há sete anos), tinha ainda poucos trabalhos audiovisuais anotados no seu currículo — apenas duas novelas e outra minissérie. Mas depois desta, era óbvio que sua carreira deslancharia, como de fato ocorreu. Aqui, ela se apodera de Alice com tanta força que seria injusto dizer que interpreta bem seu papel: de forma alguma, porque nos 13 episódios Andréia Horta é Alice. E é no seu carisma que talvez se encontre o maior trunfo da série.

Andréia Horta

Se Horta foi uma verdadeira descoberta, o resto do elenco também foi escolhido de forma muito acertada. Como é bom sempre ver em cena a ótima Sílvia Lourenço/Monique (Contra Todos, O Cheiro do Ralo) ou a encantadora Daniela Piepszyk/Regina Célia (O ano em que meus pais saíram de férias). A parte mais experiente do elenco é de primeira e dispensa maiores comentários; inclusive há agradáveis surpresas, como as participações mais do que especiais de Antônio Petrin/Kid Montana e Antônio Abujamra/Elder, ou as breves mas boas intervenções de Paula Pretta e José Trassi, como a prostituta Marília e a travesti Luana Baygton, respectivamente.

Em resumo, “Alice” foi uma ótima série que confirmou a inegável qualidade das produções da HBO e o excelente nível dos realizadores e atores brasileiros. Resultado técnico impecável, elenco afiado, situações reconhecíveis e uma apaixonante São Paulo compõem um mosaico que provoca muita vontade de ver mais.

PS. Vi os episódios gravados e assisti todos de uma só vez. Um depois do outro, no Natal de 2008. Este foi um dos maiores méritos da série: é apaixonante e completamente viciante.

Luka Omoto, Juliano Cazarré e Gabrielle Lopez

Luka Omoto, Juliano Cazarré e Gabrielle Lopez

Ficha Técnica

Série: Alice
Produção: Gullane Films, para a HBO
País: Brasil
Datas de exibição: de 21 de setembro a 14 de dezembro de 2008
Direção geral: Karim Aïnouz e Sérgio Machado
Elenco: Andréia Horta, Carla Ribas, Daniela Piepszyk, Daneri Gudiel, Denise Weinberg, Eduardo Moscovis, Felipe Massuia, Gabrielle Lopez, Guta Ruiz, Juliano Cazarré, Luka Omoto, Marat Descartes, Olga Machado, Regina Braga, Renata Laurentino, Sílvia Lourenço, Vinícius Zinn, Walderez de Barros.

Entrevistas

Andréia HortaAndréia Horta:
“Estou experimentando todos os lugares, cada um a seu tempo”

ALDEIA CULTURAL. “Alice” teve grande repercussão em 2008 e consequentemente colocou você e seu trabalho em evidência. O que mudou na sua vida depois de fazer o seriado (positiva e negativamente)?

ANDRÉIA HORTA. Positivamente meu trabalho foi muito bem recebido e pessoas que nem assistiram a série se tornaram simpáticas a meu trabalho só de ter ouvido falar (risos). Ter trabalhado com todas as pessoas com quem trabalhei lá deu uma certa credibilidade. Negativamente… talvez a expectativa dos próximos trabalhos por parte das pessoas, sei lá… talvez seja só uma sensação minha.

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Gabrielle LopezGabrielle Lopez:
“Alice foi uma experiência transformadora”

ALDEIA CULTURAL. No ano passado, a HBO exibiu a série Alice, na qual você interpretou um dos papéis principais. Como você recorda a experiência de ter participado dela?

GABRIELLE LOPEZ. Foi uma experiência transformadora. Primeiro porque dei vida à personagem Marcela, que tem uma energia diferente da minha. Vivê-la foi passear em universos diferentes da minha realidade e poder enxergar outras possibilidades. Também tive o privilégio de ser dirigida por quatro diretores talentosíssimos. Participei de uma experiência intensa, o que me instigou a trabalhar com a minha verdade e o meu material humano.

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Luka OmotoLuka Omoto:
“Por mim daqui pra frente eu só faria Alice”

ALDEIA CULTURAL. Qual era a sua expectativa para o processo de seleção, como foram os testes e como você ficou sabendo que teria um dos papéis mais importantes da série?

LUKA OMOTO. Depois de mais de 10 anos morando na Alemanha e sem ter nunca rodado no Brasil, resolvi procurar uma agente em São Paulo. No dia em que fui levar meu material lá estava rolando o teste. Cinco meses depois, à meia-noite de um sábado, eles queriam que eu estivesse segunda-feira em São Paulo para começar a ensaiar. Li o roteiro no avião. Aliás naquela época eu ainda iria fazer a Marcela e a Silvinha (Lourenço) é que era a Dani!

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Andréia Horta: “Estou experimentando todos os lugares, cada um a seu tempo”

Andréia Horta

Assim como a personagem, atriz deixou sua cidade para descobrir a capital paulista l Foto: HBO

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No ano passado, a HBO lançou a série “Alice”, que foi exibida para todo o Brasil e América Latina e posteriormente também para os Estados Unidos. Um dos muitos acertos do seriado dirigido por Karim Aïnouz e Sérgio Machado foi apresentar o trabalho de uma atriz que com uma atuação segura e envolvente acabou por dar uma nova dimensão ao seu personagem, a tal ponto que a nítida impressão que fica depois de assistir o programa é que Alice realmente existe e tem vida própria.

Nascida em 27 de julho de 1983 em Juiz de Fora, Minas Gerais, Andréia de Assis Horta começou a carreira artística ainda na adolescência, quando fez parte do elenco de algumas peças de teatro em sua cidade natal. Aos 17 anos, se mudou para São Paulo, onde cursou estudos na Faculdade Paulista de Artes (FPA) e na Escola Livre de Teatro (ELT, Santo André), além de continuar atuando nos palcos. Foi depois de uma dessas apresentações que a atriz recebeu o convite para fazer um teste para a minissérie “JK”, da Globo, na qual interpretaria mais tarde o papel de Márcia Kubitschek.

A carreira televisiva de Andréia continuaria na Record, com um dos papéis principais da novela juvenil “Alta Estação”, ao lado de Ariela Massotti e Lana Rodes; ainda nessa época, quase ao final das gravações do programa, a atriz participou dos testes para a escolha da protagonista de “Alice”, que já duravam meses sem que nenhuma das centenas de candidatas fosse selecionada. Também pela mesma emissora, interpretou um dos personagens de maior destaque da novela “Chamas da Vida”, antes de filmar seu primeiro longa — Muita Calma Nessa Hora, que deve estrear no próximo ano.

Na entrevista, a atriz — que recentemente pode ser vista na ‘peça virtual’ Sapato e Porta-Retrato, do projeto Teatro para Alguém — relembra os anos em que atuava nos palcos paulistanos e nos quais inclusive escreveu um livro de poesias, fala sobre seu desejo de continuar explorando diferentes espaços no campo da atuação e também sobre a experiência de ter protagonizado a série da HBO.

Andréia HortaEntrevista
Andréia Horta l Atriz e escritora

ALDEIA CULTURAL (AC). “Alice” teve grande repercussão em 2008 e consequentemente colocou você e seu trabalho em evidência. O que mudou na sua vida depois de fazer o seriado (positiva e negativamente)?

ANDRÉIA HORTA (AH). Positivamente meu trabalho foi muito bem recebido e pessoas que nem assistiram a série se tornaram simpáticas a meu trabalho só de ter ouvido falar (risos). Ter trabalhado com todas as pessoas com quem trabalhei lá deu uma certa credibilidade. Negativamente… talvez a expectativa dos próximos trabalhos por parte das pessoas, sei lá… talvez seja só uma sensação minha.

AC. É verdade que você não estava a fim de fazer o teste para a série? Como foi isso? E quando te informaram que você havia sido escolhida para o papel principal, você tinha consciência do que isso significava? Qual foi a sua reação no momento?

AH. Na época dos testes eu estava envolvida em outro trabalho sem previsão de fim e no qual eu era uma das protagonistas, ou seja, eu trabalhava muuiitoo! E todas as minhas amigas estavam fazendo o teste e não passavam, pessoas que eu admirava muito, então pensei: eu que não vou lá! E o tempo passando, não encontravam Alice, minha agente insistindo pra eu fazer o teste durante 5 meses até que o trabalho que eu estava fazendo acabou e eu fui fazer o teste e rolou. A série no início não se chamava “Alice”, eu só sabia que seria a protagonista mas mesmo assim sem saber muito o que significava isso dentro daquele trabalho. Quando me dei conta achei que ia ficar louca de tanta alegria, medo, responsabilidade, disciplina, tudo ao mesmo tempo. Foi uma honra.

AC. Alice é um personagem com uma carga emocional muito forte. Até que ponto isso te afetou durante e depois das gravações e quão difícil foi ‘desplugar’ do personagem e voltar a ser a Andréia?

AH. Eu quis mergulhar no universo dela, esse é meu ofício e minha paixão. Quando acabou meu estômago gritava e isso durou um tempo, não sei explicar, vai ver meu corpo teve abstinência da Alice (risos).

AC. A exemplo do personagem da série, você também chegou de uma cidade menor até São Paulo. Como foram seus primeiros anos morando na capital paulista?

AH. Tudo era novo. Sentia que havia todas as possibilidades, eu cheguei com muita fome de conhecimento, estudei muito, conheci muita gente, mas claro que também foi difícil, se não lutar você é engolido! São Paulo não tem tempo a perder. É um lugar que eu amo.

AC. No teatro, você já encenou Dostoiévski e Nelson Rodrigues, foi aluna de Antônio Araújo e participou de um processo do Teatro da Vertigem. Conte um pouco sobre esses trabalhos que aconteceram antes de sua entrada na televisão.

AH. Todos esses trabalhos foram frutos de muita pesquisa, longos processos, grandes aprendizados, artistas brilhantes envolvidos e poucas condições financeiras pra se realizarem, cada um tinha que conseguir alguma coisa! Foi um tempo de ouro mas financeiramente risível! O teatro sobrevive de sócios, pessoas que por amor não deixam morrer a necessidade de dizer alguma coisa que nos provoque, pra vida fazer um pouco de sentido, nós precisamos fazer perguntas, é o inevitável de nós. Porque fácil não é.

AC. No ano passado, foi lançada a terceira edição do seu livro de poesias, Humana Flor. Qual é a história que está por trás desse livro e como você conseguiu publicá-lo pela primeira vez?

AH. Comecei a escrever na época da faculdade e em um período sem um real resolvi publicar independente e vender na rua, nos teatros, em bares, portas de cinemas, festas, onde dava eu ia. E vendia! Foi uma experiência!

AC. Depois de muito tempo fazendo teatro, você trabalhou na televisão durante três anos praticamente sem parar. Recentemente, atuou também no filme Muita Calma Nessa Hora. Em qual dos três você se sente mais cômoda: cinema, TV ou teatro? Você pensa priorizar projetos no cinema, por exemplo, ou não tem essa intenção?

AH. Estou com muita saudade do confronto do teatro, daquele lugar do ator. Estou louca pra fazer cinema, queria poder fazer bastante pra exercitar aquele lugar sensível que o cinema traz, aquele lugar de dentro, mas não é tão fácil assim, sou atriz, preciso que me deem espaço pra isso! A TV é um exercício diário para o ator que se propõe a criar personagem lá, é difícil de fazer, creia! Tenho 26 anos e estou experimentando todos os lugares, cada um a seu tempo, sei lá… me faz essa pergunta daqui a 50 anos!

Fotos: Divulgação HBO, Audi Magazine e still do seriado Alice.
Agradecimentos: à artista visual Cristina Suzuki pela valiosa colaboração.

Luka Omoto: “Por mim daqui pra frente eu só faria Alice”

Luka Omoto

A atriz mora em Berlim e trabalha desde os anos 90 na TV e no cinema europeu l Foto: Divulgação

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Dona de um currículo que inclui ao redor de três dezenas de filmes para o cinema e a televisão da Alemanha, onde mora há vários anos, até pouco tempo atrás a atriz carioca Luka Omoto curiosamente ainda não havia atuado em português frente às câmeras, embora já o tenha feito em outros idiomas nos diversos projetos de que formou parte.

A estreia em uma produção brasileira aconteceu em 2007, quando Luka foi escolhida para integrar o elenco do seriado “Alice”, que a HBO exibiu no ano passado para toda a América Latina e os Estados Unidos; nele, a atriz deu vida a Dani, a amiga que ‘apresenta’ São Paulo para a protagonista, ajudando-a a se inserir no meio. Além de render ótimas críticas, o personagem acabou se tornando um dos mais populares da série, como se comprova ao ler opiniões publicadas em blogs, redes sociais e fóruns de discussão espalhados pela rede.

De ascendência oriental (a mãe é brasileira e o pai é nissei), Luka já possui a experiência de ter filmado em outros países europeus, mas deseja também trabalhar no cinema brasileiro, como revelou nesta entrevista concedida ao ALDEIA CULTURAL no mês passado. A atriz fala ainda sobre alguns dos personagens que interpretou, de como foi parar na Alemanha e de seus primeiros anos vivendo naquele país e, claro, da sua participação na série da HBO.

Luka OmotoEntrevista  
Luka Omoto l Atriz

ALDEIA CULTURAL (AC). Você iniciou sua carreira muito nova no Rio de Janeiro, participando de algumas peças de teatro. Quais são suas lembranças da época em que atuava nos palcos cariocas?

LUKA OMOTO (LO). Na verdade são as melhores possíveis. Na minha primeira peça eu ainda tinha 14 anos e ficamos sete meses em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues. Nessa época meus pais costumavam passar o fim de semana em Angra, então eu ficava sozinha no Rio e aproveitava pra fazer tudo o que tinha direito! Já M. Butterfly foi uma experiência e tanto, pois eu era relativamente inexperiente e contracenava com gente como o Raul Cortez. Lembro de uma vez no final de um espetáculo ter dito pro meu namorado que estava me sentindo como depois de um orgasmo: feliz e aliviada!

AC. Posteriormente, você seguiu rumo à Alemanha, onde mora até hoje. O que te motivou a se mudar para esse país e como foram seus primeiros anos morando lá? Pergunta manjada, porém inevitável: teve alguma Dani que te ajudou na adaptação ao novo lugar?

Luka OmotoLO. Estava eu em um final de tarde em casa vendo TV quando meu irmão chegou dizendo que havia conseguido convites para o show do Paul McCartney no Maracanã. Apesar de não ser muito fã dele acabei resolvendo ir (como diz o meu irmão: “De graca até injeção na testa e ônibus errado!”). Como não sou muito alta e do gramado não conseguia ver nada, me escorava um pouco num lourinho que estava em pé do meu lado. Um ano mais tarde, dois meses pra eu completar 18 anos, eu cheguei em Berlim. Meu primeiro ano foi super tranquilo, pois fui morar na casa dos pais do tal do lourinho e graças a Deus eles eram pessoas maravilhosas. No ano seguinte eu fiz prova de admissão pra escola estadual de balé e me mudei para um internato da escola. Ele ficava no lado oriental da cidade, não tinha telefone em casa e meu namorado foi estudar em Hamburgo. Essa época foi realmente punk. Minha Dani foi de certa maneira a Marta Freire, filha do (advogado e político) Roberto Freire, que na época era bailarina da Ópera de Berlim e até hoje é super amiga minha. Por sinal ela se casou com meu antigo marido, pai do meu filho, e sempre passamos Natal juntas!

AC. Em todo este tempo, você tem construído uma carreira que já soma cerca de 30 trabalhos para o cinema e a TV da Alemanha. De todas essas produções, quais as que você mais gostou de fazer?

LO. Acho que dois trabalhos realmente marcaram bastante: Liebe in Letzter Minute foi um TV movie rodado em Hamburgo e em Bangkok, e Silentium um longa austríaco baseado em um romance do Wolf Hass. Em Liebe… eu fazia a protagonista, uma tailandesa que mora em Hamburgo e vai pra Tailândia buscar o filho e acaba se apaixonando por lá. A parte que mais gosto no meu trabalho é a pesquisa. Fazer o papel de uma tailandesa em Bangkok fez com que eu realmente tivesse que mergulhar nessa cultura e isso foi com certeza muito enriquecedor. Em Silentium, apesar de ser uma comédia (de humor negro, todavia) o tema da minha personagem era bastante pesado, pois eu fazia o papel de uma virgem que era violentada por um cantor de ópera nojentíssimo. Li muitos livros a respeito disso e naquela época foi lançado Dogville, do Lars von Trier. Fui ver o filme em Viena durante as filmagens e voltei pra casa sozinha, de noite, morrendo de medo de ser atacada no meio da rua. No final das contas quando fomos fazer a cena foi hilário. O ator (que por sinal é bastante conhecido por aqui) ficava com a barriga enorme balançando e bufando na minha cara. Realmente era difícil me concentrar e não começar a gargalhar! É um filme ótimo, pena que ainda não foi lançado no Brasil.

Luka OmotoAC. E daí veio o Alice, da HBO. Qual era a sua expectativa para o processo de seleção, como foram os testes e como você ficou sabendo que teria um dos papéis mais importantes da série?

LO. Depois de mais de 10 anos morando na Alemanha e sem ter nunca rodado no Brasil, resolvi procurar uma agente em São Paulo. No dia em que fui levar meu material lá estava rolando o teste. No mesmo dia à noite me mandaram um e-mail dizendo que eu não fosse para o Rio pois queriam fazer um recall em dois dias. Isso foi em janeiro. Cinco meses depois, à meia-noite de um sábado, enquanto eu preparava as minhas coisas para embarcar pra Cannes, a Vivian Golombek (responsável do casting) me liga. Eles queriam que eu estivesse segunda-feira em São Paulo para começar a ensaiar. Eu tinha um filho, duas gatas, um apartamento e um namorado pra organizar com quem deixar! Li o roteiro no avião. Aliás naquela época eu ainda iria fazer a Marcela e a Silvinha (Lourenço) é que era a Dani!

Luka OmotoAC. Seu personagem (Dani) acabou sendo um dos mais queridos pelos espectadores da série. Como foi interpretá-lo e qual é a sua recordação do período de gravações?

LO. Fico super feliz em saber que a Dani é tão querida. Só percebi isso depois que vi que a Dani tinha mais amigos no Orkut do que eu! A fase inicial dos ensaios foi bastante pesada, não conhecia ainda o método da Fátima Toledo e ele é muito cansativo, mas rodar em si foi uma delícia. Adorei tanto a equipe quanto o elenco! Por mim eu daqui pra frente só fazia “Alice”!

AC. Quais são seus projetos atuais ou que deverão ser realizados em breve?

LO. Meu projeto atual se chama Luiz e tem 10 meses de idade (nasceu no dia da festa de estreia de “Alice”!). Profissionalmente não gosto de falar de projetos que ainda não acabaram de ser realizados.

AC. Seu currículo já conta com uma lista bastante extensa de filmes, mas nenhum deles foi feito no Brasil. Você tem vontade de fazer? Tem acompanhado o cinema brasileiro ou é difícil assistir morando fora?  

LO. O cinema brasileiro tem se desenvolvido de maneira excelente e sempre que vou ao Brasil aproveito pra tirar o atraso. Daqui de Berlim só consigo ver os que vêm para os festivais ou para as locadoras, mas já dá pra ter uma boa ideia. Realmente é engraçado eu nunca ter feito um longa brasileiro. Espero que isso mude bem rápido!

Fotos: Luka em foto de divulgação (1/2), nos filmes Silentium (3) e Peer Gynt (5, com Robert Stadlober) e na série Alice (4, ao lado de Andréia Horta).

Gabrielle Lopez: “Alice foi uma experiência transformadora”

Gabrielle Lopez

A atriz encarnou a Marcela da série Alice e agora prepara novos trabalhos no cinema l Foto: HBO

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Brasiliense, mas morando já há alguns anos em São Paulo, a atriz Gabrielle Lopez vive um ótimo momento de sua carreira, com diversos trabalhos acumulados principalmente no cinema e no teatro, embora provavelmente seja mais conhecida pela personagem Marcela, que interpretou na série “Alice”, exibida pela rede internacional de televisão HBO no ano passado e que atualmente é reprisada no Brasil.

Gabrielle estreou no cinema em Subterrâneos, primeiro longa-metragem de José Eduardo Belmonte, que voltou a chamá-la para coprotagonizar A Concepção, filme que ganhou prêmios, dividiu opiniões e impulsou a carreira do diretor e de boa parte do elenco. Mais recentemente, a atriz esteve também no curta-metragem V.I.D.A., de Geison Ferreira e Vinicius Zinn (o Nicholas de “Alice”), além de outros trabalhos.

Na entrevista concedida ao ALDEIA CULTURAL, a atriz fala sobre o ambiente no set de algumas de suas principais produções, das sensações que experimentou ao fazer a série da HBO e também de seus atuais projetos profissionais, tanto sobre os palcos como frente às câmeras.

Gabrielle LopezEntrevista 
Gabrielle Lopez l Atriz

ALDEIA CULTURAL (AC). No ano passado, a HBO exibiu a série Alice, na qual você interpretou um dos papéis principais. Como você recorda a experiência de ter participado dela?

GABRIELLE LOPEZ (GL). Foi uma experiência transformadora. Primeiro porque dei vida à personagem Marcela, que tem uma energia diferente da minha. Vivê-la foi passear em universos diferentes da minha realidade e poder enxergar outras possibilidades. Também tive o privilégio de ser dirigida por quatro diretores talentosíssimos: Karim Aïnouz, Sérgio Machado, Márcia Faria e Johnny Araújo. A cada dois episódios a direção era revezada por um dos quatro. Como a linguagem era cinematográfica, me senti muito à vontade, pois até hoje vivenciei mais cinema e teatro, que considero processos completamente artesanais. Participei de uma experiência intensa, o que me instigou a trabalhar com a minha verdade e o meu material humano. Tive total liberdade de trazer meu olhar para as cenas. Isso é fantástico! Quando executo um trabalho, não me preocupo só com o resultado, o mais importante pra mim é a experiência humana contida na história. Foi uma honra viver uma personagem com um universo tão rico como o da Marcela. Só pra ilustrar melhor a experiência, foi como um filme rodado em oito meses.

AC. Alice tem uma estética que impressiona; tanto a trilha sonora como a ambientação chamaram muito a atenção de quem viu a série. Você tinha ideia de como ia ser o resultado antes de vê-lo na tela ou foi uma surpresa também para os atores?

GL. Eu não tinha ideia do resultado. Mas o processo já era completamente satisfatório. Ali já se percebia que todo o projeto e sua execução estavam em mãos de talentosos artistas. Quando assisti o resultado, pela primeira vez, nossa… fiquei muito emocionada. Lembro que quando cheguei à casa da Marcela pela primeira vez, nos ensaios, achei tudo tão bonito. Ali comecei a sentir a atmosfera que viveria nas filmagens. Com o Karim na direção geral, eu tinha certeza que seria, no mínimo, interessante. Ele é um profissional de muita sensibilidade, já conhecia seu trabalho. A trilha foi uma surpresa pra mim. Ouvi quando foi ao ar. Achei a cara da série! Adorei!

AC. Uma das subtramas que os espectadores mais gostaram com certeza foi o envolvimento entre Marcela, Dani e Téo. As pessoas comentam isso com você? E como foi o entrosamento com Luka Omoto e Juliano Cazarré? Com o Juliano você já havia feito outros trabalhos antes, não é mesmo?

GL. Fui e ainda sou muito abordada por causa desse trio (risos). Realmente deu o que falar, principalmente quando a Marcela trai a Dani com o Téo. Pra minha surpresa, o público torceu pra Marcela e vibrou muito com a nossa trama. A Luka eu conheci nos ensaios. O Juliano já conhecia, trabalhamos juntos no longa A Concepção em 2004. Para tornarmos esse trio íntimo, contamos com a preparação da Fátima Toledo. Exercitávamos situações que provocavam nossa intimidade e amizade. E depois de suar bastante, nos tornamos amigos. Confesso que por já conhecer o Cazarré facilitou realizar as cenas mais delicadas. Volta e meia recebo recados para a Marcela (risos). Tem gente que se diz inspirado nela.

AC. Vamos falar agora do longa que projetou a carreira do José Eduardo Belmonte: A Concepção. Um filme ousado, em que tanto o diretor como os atores assumiram vários riscos. Como foi fazer esse filme?

Gabrielle Lopez em A Concepção

GL. Conheci o Belmonte em seu primeiro longa Subterrâneos e por causa da nossa afinidade ele escreveu a Ariane (personagem que vivi no longa A Concepção). Quando formalizou o convite, não pensei duas vezes porque desde a nossa primeira experiência profissional percebi que tínhamos química. Senti que podíamos dar mais um passo juntos. O Belmonte tem uma maneira de tirar do ator o que o próprio ator desconhece. Suas personagens são sempre muito angustiadas e caminham na desconstrução. Fazer o filme foi apenas uma extensão de um processo que começou em 2001 e, logicamente pra mim, com um grande apreço, pois o Belmonte foi meu primeiro diretor no cinema. Riscos? Será que existe algum filme que não seja arriscado? Como atriz, não consigo responder essa pergunta. Acho que desde o dia que nascemos corremos riscos (risos). Quando vou para um trabalho não penso no que pode dar errado. Vou de corpo e alma com o coração na mão bem quente e pulsando, pronto pra entregar. Para fazer o filme, moramos durante as filmagens na Academia de Tênis em Brasília, acho que durante dois meses, e tínhamos ensaios diários. Tudo minuciosamente sob o olhar do diretor. A equipe inteira também se envolveu com o nosso ‘clima concepcionista’ e por isso tudo era muito sincero e divertido. Foi um processo de descobertas e entrosamento entre os atores (personagens). Precisávamos de intimidade e confiança mútua. A hora que a câmera chegou foi só um detalhe. Me dediquei completamente pra Ariane e aconteceu um episódio curioso durante as filmagens. Antes de filmar a cena onde o pai da Ariane tem um AVC (acidente vascular cerebral), meu pai, que mora em Brasília (minha cidade natal), teve um AVC. Como o mote da história do filme era dar ‘truque’ no outro, a equipe inteira achou que eu, Gabrielle, estava dando um truque. Posso dizer que foram muitas emoções na realização desse filme que adoro. Mas não foi fácil! Fiquei um bom tempo impregnada com a energia da Ariane e tudo foi tão intenso que depois quando voltei pra minha realidade, em São Paulo, parecia que estava me separando de entes queridos. Às vezes assisto o filme pra matar a saudade, inclusive do David Bowie, pois suas músicas foram nosso soundtrack no set.

AC. Você também morou durante alguns anos nos EUA. Quanto tempo você esteve no país e o que fez durante esse período?

GL. Morei cinco anos em Michigan e um ano em Nova Iorque. A princípio fui fazer intercâmbio cultural aos 17 anos e acabei ficando para cursar artes cênicas na faculdade, nesse período trabalhei com teatro e depois de formada segui rumo a Nova Iorque para complementar meus estudos e experimentar a ‘Big Apple’.

AC. Outro trabalho recente seu foi o V.I.D.A., curta-metragem que aborda com sensibilidade um assunto ainda não muito explorado, como é o da depressão. Conte um pouco sobre esse projeto.

Gabrielle Lopez em Alice

GL. Fui convidada pra esse projeto pelo ator Vinicius Zinn (nos conhecemos na série “Alice”) e seu amigo Geison Ferreira. Ambos dirigiram o curta e roterizaram com a parceria da Ana Maria Saad. Achei o tema muito pertinente e informativo. A minha personagem representa “quem convive com o doente”, no caso a irmã sofre da doença e negligencia cuidados com a sua filha. Assumi o papel de quem não sabe lidar com o problema e acha que o outro é preguiçoso, louco ou coisa parecida. Foi desafiante trabalhar com esse tema, até porque já tive depressão e sei o quanto o preconceito e a ignorância são prejudiciais para os envolvidos. Como estávamos abordando um assunto muito delicado, havia um silêncio, um respeito e a direção foi muito precisa. Sabíamos que o V.I.D.A. era uma história baseada em fatos reais.

AC. Você também fez bastante teatro. Tem algum plano para atuar em uma nova peça em breve ou pretende priorizar trabalhos na TV e no cinema?

GL. Tenho projetos no teatro que estão em desenvolvimento. Um deles é novidade pra mim porque se trata de uma peça para internet que irá ao ar em agosto. Além de estar em contato com textos de novos autores para futuros trabalhos. Meu foco não está nos veículos de comunicação, mas sim no que cada trabalho abrange; como direção, autor, personagem, etc. Pretendo priorizar trabalhos que me proporcionem dignidade e desenvolvimento profissional. No mínimo isso. De resto, sou apaixonada pelo meu ofício. Qualquer trabalho é um grande desafio. Este ano, por exemplo, tive e tenho recebido mais convites para fazer cinema, alguns já foram fechados! O cinema me quer, lá vou eu (risos)!

Fotos: Gabrielle com Juliano Cazarré (Téo) em Alice, no material de divulgação de A Concepção e novamente na gravação da série da HBO, ao lado de Antônio Abujamra (Elder).